José Aldyr Gonçalves

Escritos de ontem, de hoje e de amanhã...

Textos

Meu amigo Elisângelo de Yeshuá, diante de minha descrença total no Absoluto, que ele classifica como ateísmo dos mais cristãos que ele já viu, e cristianismo dos mais ateus que ele alcança, havia me garantido, outro dia, depois de umas cósmicas caipiroscas, que Deus, entre outros pertences de eterna valiosidade, possui celular, sim, na verdade um smartphone de alta complexidade, com slots virtuais para chips de infinitas operadoras intergalácticas, único no mercado do além que já vem com o sistema operacional exclusivo, o heaven-android instalado, uma vez que estando localizado acima de tudo e de todos, nada lá se pode baixar, nem o BrOffice, ora em fase de teste no purgatório, uma vez não haver conseguido contingência de aprovação nem de um lado nem do outro.
Eu não havia ousado contestar, ou melhor, verbalizar minha dúvida, a princípio, afinal a ingestão da substância cósmica ficara por minha exclusiva conta, uma vez que ele abdicara dessa transubstanciação caipirósquica para, no auge de sua contemplação, optar pela lucidez energética de um pote de açaí; mas tenha santa paciência, essa, nem o Edir e o Valdomiro juntos, empresários apostólicos dos mais bem sucedidos no ramo, celebridades televisivas dos últimos tempos, proclamaram até então tamanha revelação em suas fés.
E antes que dicionaristas e/ou fanáticos de plantão me acionem judicialmente, pela grafia errônea da palavra “fés” que, dado ao sentido que dizem ter a fé, o termo não admitiria plural, afirmo tê-lo feito de forma propositada, exatamente, pela imensidão da pluralidade de suas concepções que não me convenceram de unificar um significado convergente e óbvio, à exceção, é verdade, dos dois personagens ora apontados, para os quais, de fato, converge comumente um objetivo real, no sentido mais pecuniário da palavra, extensivo, naturalmente aos euros e dólares que lhes garantem certa (ou errada) supremacia.
Mas voltemos a falar de Deus, posto que, “falar com” parece bem mais difícil para mim e para muitos, cabendo esclarecer que desde os anos oitenta eu havia desistido dessa façanha mítica, mística e mitológica, sobretudo porque Gilberto Gil já havia resumido algumas condições para isto, em uma canção que entre outras coisas aterrorizantes, dizia que “se eu quiser falar com Deus tenho que comer o pão que o diabo amassou, depois de dizer adeus, dar as costas, caminhar decidido, pela estrada que ao findar vai dar em nada”.
Lembrei-me de um amigo que mora fora desse estado no sentido geográfico e de sanidade razoável, e considerando que ele havia me revelado que somente aos vinte e três anos de idade se convenceu que não era um ser extraterrestre (eu ainda tenho minhas dúvidas quanto a isso e quanto a mim), achei que ele pudesse responder para que número eu deveria ligar a fim de conseguir falar com Deus. Ele me fez a segunda revelação bombástica de nossa tão relevante amizade: que isso era ao mesmo tempo simples e impossível, pois ele estava convicto que Deus é uma proporção originada da relação entre as grandezas do perímetro de uma circunferência, a eternidade, e o seu próprio diâmetro, disfarçado naquele símbolo da letra grega π (Pi) que alguns matemáticos reduzem para 3.1416, mas que com menos de cinquenta das demais infinitas casas, eu não conseguiria completar a ligação; e que se o conseguisse, de outra forma, estava desautorizado a dizer que fora ele quem me passara o número, por razões de ética.
3,141592653589793238462643383279502884419 71693993751058. De fato, está até na Wikipédia. Eu tentei do móvel, do fixo e do skype. Tentei mesmo, e nada! A caipirosca e o açaí haviam cumprido sua missão nos respectivos estômagos, fígados e cérebros. E assim cada um seguiu para o seu recanto. Cheguei em casa pensativo, quase sorumbático e macambúzio, e depois da bênção cibernética do fim de noite, apesar de o incansável Professor Google haver acordado para me esclarecer que essas duas palavras têm quase o mesmo significado, recolhi-me sentindo, na alma, melancólica e distintamente as duas coisas.
A madrugada seguia seus mistérios, quando o relógio marcava precisamente as 3:14:15, senti um repentino arrepio quando o meu celular tocou. No visor “Número não identificado”. Sem acender a luz, atendi quase trêmulo ou mais que isso:
– Alô, quem é?
 – Eu sou o Alfa e o Ômega, desde os confins do tempo. Jamais poderás ver a minha face, pois homem nenhum pode ver a minha face, e viver, sabes disso desde o Êxodo. E você, quem pensa que é?
– Eu?
– Por acaso estou falando com mais alguém?
– Sei lá, se é quem estou pensando, dizem que você está em toda a parte, ao mesmo tempo e sabe e pode tudo, logo, como vou saber se está falando só comigo? Tem gente que fala com diversas pessoas ao mesmo tempo, no MSN...  
– Engraçadinho. Essas e outras piadinhas blasfêmicas baratas que você vomita por aí, têm me tirado do sério, sabia?
– Sério? Bem, desculpe, achei redundante dizer quem sou para quem sabe tudo. Afinal, eu poderia dizer que sou a sua imagem e semelhança, conforme está escrito, mas quando olho no espelho, fico a pensar: você é feio também ou esse papo de semelhança é propaganda enganosa?
– Está escrito também que enganosa é a beleza e a formosura é passageira.
– Tô ligado, Provérbios 31, mas aqui pra nós, Vossa Onipresença deu uma puxada de saco agora para a tradução protestante, mas deixa pra lá, eles que se desentendam. Mas escute, eu não entendi até agora qual a razão do seu contato, cara.
– Cara?
– Perdão, sei lá... Coroa?
– O que?
– Peraí, né, você não é tão novinho assim pra se ofender com essa palavra e, em outro aspecto, há até quem lhe trate na condição de rei, e você sabe que isso, por si só, já pressupõe outra coroa.
– Nunca escutaste que “sobre os ímpios posso fazer chover brasas ardentes e enxofre incandescente e vento causticante”?
– Cara, quer dizer, Excelência, não, Vossa Oniciência não acha que está apelando demais para o antigo testamento? Já há quem abomine até em púlpitos e altares aqui essas ameaças e até quem acuse que o seu assessor jurídico Moisés usou seu nome para fazer valer leis ameaçadoras, destruidoras e meramente carnais.  
– Em verdade, em verdade eu vos digo...
– Desculpe interromper, mas eu não havia concluído. Não tenho razões crédulas ou filosóficas para ouvir suas explicações e verdades. Sem contar que a Sociedade Protetora dos Animais, o IBAMA e muitas ONGs neste planeta ainda estão “por aqui” com aquela do seu servo Josué que obedecendo a sua política de cooptação e confronto com os que se rebelaram contra suas ordens, disse que você usou as redes sociais da época para mandar: "Não tenha medo deles, porque amanhã a esta hora entregarei todos mortos a Israel. A você cabe cortar os tendões dos cavalos deles e queimar os seus carros". E o mais grave: ele fez exatamente isso. Matou à espada todos os que estavam na cidade, exterminando-os totalmente, sem poupar nada que respirasse. Isso é divinamente desumano ou humanamente divino ou o quê?
Ele, ao invés de refletir e se acalmar para responder, esbravejou com o que está em Êxodo Capítulo 9, versículos de 14 a 18: “Mandarei desta vez todas as minhas pragas contra você, contra os seus conselheiros e contra o seu povo, para que você saiba que em toda a terra não há ninguém como eu. Porque eu já poderia ter estendido a mão, ferindo você e o seu povo com uma praga que teria eliminado você da terra. Mas eu o mantive em pé exatamente com este propósito: mostrar-lhe o meu poder e fazer que o meu nome seja proclamado em toda a terra. Contudo, você ainda insiste em colocar-se contra o meu povo. Amanhã, a esta hora, enviarei a pior tempestade de granizo que já caiu sobre o Egito, desde o dia da sua fundação até hoje”.
 Assustado, ainda pensei em gritar por clemência ou coisa parecida, mas, talvez, pior do que a ameaça da praga, foi o jeito esnobe e humilhante com o qual ele encerrou nossa conversa, quando sem me permitir um único sussurro, prosseguiu:
– Escute aqui, criatura micro-orgânica, o que eu quis dizer, antes, em verdade, em verdade, e você me interrompeu, é que para mim nem há distinção nem diferença entre ti e o germe, o micróbio, a bactéria, o bacilo e outros vírus que vivem por aí, tal qual você. E se não te permiti a reprodução típica dos protozoários que se dividem em cópias de si próprios, é porque a tua cópia única já me basta.
 – Mas...
– E tem mais, se tu quisesses merecer falar com seres de categoria superior a tua, que são infinitos, já teria criado vergonha e comprado um aparelho idem, porque com esse teu “celularzinho peba” aí, dá licença, né, me poupe; até a tua comunicação é limitada. E a partir de agora, de você, não aceito nem WhatsApp. Ah, e maldito o anjo da guarda que intercedeu para que eu te ligasse.
Sem defesa e sem ação, eu apenas ironizei debochada e sarcasticamente:
– Amém. E acordei.

Publicado no livro: Talentos Literários do MPRN – Organização Nouraide Queiroz – Natal/RN, 2013 -  por iniciativa do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte.
JOSÉ ALDYR GONÇALVES
Enviado por JOSÉ ALDYR GONÇALVES em 18/08/2015
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Citar: Autoria de José Aldyr Gonçalves). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras