José Aldyr Gonçalves

Escritos de ontem, de hoje e de amanhã...

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EMBARCANDO EM UMA VIAGEM FANTÁSTICA
EMBARCANDO EM UMA VIAGEM FANTÁSTICA

Havia cerca de um ano que eu chegara àquela instituição de abrigo a idosos carentes, inspirado por um projeto de experiência de uma comunidade franciscana da qual passei a fazer parte como voluntário efetivo e residente. Cada idoso ali representava um pedaço de fantásticas histórias de vida que mereciam muitos livros, porém o tempo, reservou-me apenas a possibilidade de fazer pequenas anotações sobre todos eles, em meus momentos de folga e meditação, para lembranças futuras.
Entre os idosos e idosas que ali viviam, alguns se destacavam pela espetacular e peculiar forma de sobreviver aos episódios da vida. Era o caso de Dionísia. Os cabelos lisos e quase totalmente grisalhos caracterizavam, num sorriso constante, uma figura que de leve revelava traços de nossas raízes indígenas, e apesar de aparentemente conformada com a realidade, vivia, todos os dias daquele convívio sob duas ansiosas expectativas: Sua irmã, Nana "que estava demorando muito a chegar" e Seu Joca, seu namorado ingrato que nunca lhe visitava ou sequer dava notícias.
O primeiro dilema era real e definitivo, consta que sua irmã havia dado entrada junto com ela no Abrigo, e que posteriormente falecera em um hospital da cidade. O segundo drama, após conversas nossas com seus parentes, fiquei sabendo, era fictício. Tratava-se de um personagem que alimentava nela uma esperança de fantasia e depressão que nos causava piedade.
Certa tarde, não suportei a tristeza do seu semblante, quando, esgotadas todas as minhas estratégias de provocar alegria e que já teria, antes, obtido êxito em transformar outros episódios de melancolia, arrisquei quase implorar: "Oh, Dionísia, não vamos deixar que aquele seu sorriso bonito seja vencido pela tristeza, ora!". Ela me emocionou com um pequenino sorriso de canto de boca, sorriso de mera partilha e amizade e quase suspirou dizendo: "É por causa de  Seu Joca... se ao menos escrevesse uma carta, já seria alguma coisa".  
Tive, então, imediatamente, uma idéia: Dionísia era a única, entre os idosos, que realmente sabia ler (quando fingir-se de analfabeta não fosse mais cômodo e lucrativo para ela, é claro!). E a partir daquele momento, optei por torcer com ela para que obtivéssemos notícias do Seu Joca. "Vamos esperar, Dionísia, vamos rezar, pois eu acredito que Seu Joca não lhe esqueceu. Quem sabe, ele ainda vai te fazer uma bela surpresa!?" Ela ficou radiante de felicidade e retribuiu-me o gesto com um abraço.
Dias se passaram sem que ela falasse na grande paixão de sua vida. É lógico que nesses períodos de aparente indiferença dela, eu guardava silêncio, respeitando a sua realidade e a sua fantasia. Eu havia conversado com uma psicóloga e um psiquiatra amigos meus, indagando suas opiniões acerca de minha idéia: fazer com que ela recebesse notícias de Seu Joca, sem que isso fosse um incentivo doentio à sua situação mental nem representasse um desrespeito aos seus sentimentos humanos. Recebi deles apoio e orientação e assim, fizemos.
Certo dia, o carteiro da esperança passou por nossa instituição; e entre as correspondências, a surpresa: uma carta para Dionísia. Foi uma tarde muito especial para ela (e para mim também!). Seu sorriso nunca tivera uma expressão tão bonita. Quanto ao conteúdo da carta, ela fez segredo. Fui o único contemplado pela sua confiança (ainda bem!). À noitinha, quando todos os funcionários já se haviam ido e a maioria dos idosos já haviam se recolhido, ela me chama e aos sussurros de segredo, confidencia: "Você tinha razão, seu danado!" E me mostrando aquele papel de carta tão conhecido meu, acrescenta emocionada: "É de Seu Joca, leia, mas não diga a ninguém o que ele escreveu, principalmente a essa gente que diz que sou doida e que ele não existe". Precisei me controlar para conter a emoção e disfarcei sugerindo que ela apenas guardasse aquele papel como se fosse... o próprio Seu Joca. Mas a sua inocência maltratou ainda mais o meu coração amigo, pois ela decidiu pessoalmente ler para mim, vagarosamente e com certa dificuldade de enxergar aquele pequeno texto que tanta alegria lhe trouxera:
"Querida Dionísia, quero que saibas que nunca te esqueci. A vida apenas nos colocou em situações muito diferentes. Mas tenha certeza de que um dia Deus nos mostrará um meio para o nosso reencontro. Enquanto isso, reze por nós e tenha paciência. Você é muito especial para mim e para muita gente. Um grande abraço de alegria e saudade. Joca"  
Compartilhei com ela, depois disso, de muitos momentos de esperança, expectativas e até alegrias. Infelizmente, Seu Joca nunca pode encontrá-la de fato. Tivemos, inclusive que justificar que na única oportunidade em que isso teria sido possível (se por acaso fosse!), ela havia saído a um passeio com uma sobrinha, na cidade. Ela aceitou o fato e as recomendações. Os seres inocentes são assim.
Dionísia partiu, um dia. Satisfeita por descobrir que os sonhos podem muito bem misturar-se à realidade. Foi encontrar-se com a sua tão querida irmã Nana, lá no Além. E eu, que acredito que o sonho pode ir muito mais além do que a gente idealiza, pedi a Deus que permitisse a um, entre os anjos que a aguardavam, recebê-la da forma mais festiva e carinhosa possível; e que para o bem e a compensação de sua perseverança na Terra, esse anjo bom pudesse ser chamado de... Joca.

josealdyr@gmail.com
JOSÉ ALDYR GONÇALVES
Enviado por JOSÉ ALDYR GONÇALVES em 02/11/2009
Alterado em 18/08/2015
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